ABOLIÇÃO: 130 ANOS DEPOIS E AINDA NÃO SAÍMOS DA SENZALA
O ano de 2018 é um ano emblemático,
principalmente, para o movimento negro tanto em nível mundial. Há 50 anos era
assassinado o maior e mais emblemático ativista e líder negro do mundo até
então, o Reverendo Martin Luther King, ganhador do prêmio Nobel da Paz de 1964.
No entanto, no Brasil, o ano de 2018 também tem algo de muito especial para nós
os negros brasileiros, pois, no dia 13 de maio de 1888, a princesa Isabel
assinava a Lei Áurea que tornava ilegal a escravidão no Brasil, ou seja,
estamos comemorando 130 anos de liberdade, pelo menos deveria ser assim.
No entanto, o que deveria representar uma
alegria e uma sensação de liberdade acabou de se transformar em um imenso pesadelo
sem fim. O negro que, até então, havia passado por quase trezentos anos de
escravidão desumana no Brasil, sem direito a salário, a educação, a voto, a
cidadania, que era tratado como uma posse, agora estava abandonado como aquele
carro que você tanto usou e que agora mais gasta com ele do que com a família,
o famoso comprado para jogar no lixo, porque ninguém da alta sociedade queria pagar
um salário a um “negrinho” que em menos 24 horas antes era o seu burro de carga
gratuito.
Parecem duras estas palavras, mas, é a mais
absoluta verdade. O Brasil apenas cedeu a pressão internacional para abolir à
escravidão no país, como eles o fizeram em seus países. Mas, não o fizeram
porque amavam os negros, eles apenas queriam que os negros passassem a consumir
os seus produtos, essa parte do plano é que eles se esqueceram de contar aos governantes
brasileiros. O problema que quase tudo no Brasil veio por forma de barganha e
não por meio de luta. A lei Áurea nada mais é que uma barganha do governo
brasileiro para obter o favor e acalmar as pressões internacionais que o país
sofria por manter o regime escravagista. Se por um lado, eles cederam as
pressões internacionais, por outro perderam o apoio de quem financiava o
Império que eram os donos de escravos e em menos de um ano o país passou a ser
governado pelo regime de república presidencialista. Ou seja, o Imperador foi
destronado e fugiu as pressa para Paris.
Para se ter uma noção sobre essa temática,
nos Estados Unidos, por exemplo, aos escravos libertos o governo americano deu
um pedaço de terra e um burro para que esses escravos pudessem recomeçar suas
vidas. Porém, lá foi por meio de revoltas, a Revolução Americana, a Guerra
Civil, ou seja, eles dão valor a liberdade, fato bem diferente do que ocorre no
Brasil. É óbvio que os brancos norte-americanos fizeram de tudo para manter-se
separados dos negros, mas, isto falará em outra ocasião.
Já, no
Brasil, não foi assim, os negros não sabiam o que fazer. Muitos, no caso os
jovens, já faziam parte da terceira, quarta e quinta geração dos africanos
traficados da África, ou seja, já tinham quase pouca ou nenhuma identidade com
os costumes e a terra natal, e também não tinham dinheiro para custear uma
viagem para voltar, na realidade estavam apenas com a roupa do corpo. Os jovens
ainda podiam buscar alento em outro lugar porque tinham o vigor da tenra idade,
mas, como eram não só prisioneiros físicos, mas, da mente também, não sabiam o
que fazer . Os velhos, esses então, em completo desespero, eles passaram a vida
inteira sendo subjugados e dominados pelos seus donos, o que eles iriam fazer?
Muitos até pediam para continuarem escravos de seus donos para não morrerem de
fome.
A verdade é que a elite brasileira, que era
branca e ainda é, preferiu dar emprego e terras para os imigrantes europeus
vindos de Portugal, Espanha, Itália, Alemanha e tantos outros, do que acolher
aqueles que os serviram por mais de trezentos anos em troca de um prato de
comida e tantas chibatadas.
Sem ter pra onde ir muitos destes foram para
os morros e periferias das grandes cidades. No Brasil, todo o tipo de ideologia
anti-negro foi instalada. Os negros foram marginalizados, tanto que tivemos
revoltas no início do século em função disto, inclusive a Revolta da Chibata. A
capoeira e as religiões de matriz africana foram marginalizadas, os negros,
além de proibidos, foram esquecidos pela nação que por suas mãos se construiu.
O que me chama a atenção é por que se a gente
jogar capoeira é proibido entre os crentes porque estaríamos adorando a deuses
africanos com suas músicas e dança, mas podemos lutar jiu-jitsu, Judô, Karatê,
Kung-Fu que também estão todas ligadas as suas religiosidades? É uma
incoerência, a faculdade de direito usa símbolos maçons, e não em advogados
cristãos? Então, qual é o problema de um cristão jogar capoeira? A resposta é que isso se chama, apenas preconceito.
A partir de 1918, trinta anos depois da Lei
Aurea, no Brasil entrava o maior desafio para o negro na sociedade, a Eugenia.
Não se trata de uma mulher com este nome, mas de uma ideologia que defendia o
branqueamento da população brasileira, como uma ideia de busca por excelência,
ou seja, isso representaria no desaparecimento do negro da sociedade. A Eugenia
foi, para se ter uma ideia, o pilar que fundamentou as lei de Jim Crow e de
anti-miscigenação nos Estados Unidos, e o holocausto judeu promovido pelos
nazistas em 1945.
Entre os intelectuais eugenistas brasileiros
que mais se empenharam na organização e divulgação do movimento destacam-se:
Belisário Penna (1868-1939), Edgar Roquette-Pinto (1884-1954), Monteiro Lobato
(1882-1948), Octávio Domingues (1897-1972), Oliveira Viana (1883-1951) e Renato
Kehl (1889-1974). Agora entendi porque a tia Anastácia nunca saiu da cozinha. Entre
os temas mais tratados pelos eugenistas brasileiros estavam a educação
higiênica e sanitária, a seleção de imigrantes, a educação sexual, o controle
matrimonial e da reprodução humana e debates em torno da miscigenação,
branqueamento e a regeneração racial.
Posteriormente, de forma oficial, a eugenia desapareceu,
mas, até hoje temos as marcas de sua herança. No Brasil, apesar de oficialmente
ser um país de maioria negra, com uma representatividade de 54% da população, e
o fato de que a segregação racial ser proibida no país, ainda sendo crime, o
racismo se faz bem presente em nossa sociedade. Segundo o site Terra,” com
dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde aponta
que, no Brasil, 71,4% das 49,3 mil
vítimas de homicídios em 2011 eram negras – o que corresponde a 35,2 mil
assassinatos”. Porém, em uma era em que a informação chega muito rápido, as
pessoas tem uma acessibilidade muito grande para poder externar a sua opinião,
as vezes essa liberdade se transforma em uma verdadeira prisão. Ou seja, 130
anos se passaram e o negro continua na senzala.
Existem pessoas que não concordam com esta
afirmação, mas, os fatos são incontestáveis. O negro foi educado, durante anos,
a servir de tapete para que os ricos brancos, desculpem o termo separatista,
poderem passar por cima. Na atualidade, a situação ainda não mudou, é só fazer
uma pesquisa sobre a população carcerária do Brasil, e se comprovará que a
maioria é composta por pessoas negras. Segundo Kabengele Munanga (2003), Carl
Von Linné (1707 – 1778), o Lineu, o mesmo naturalista sueco que fez a primeira
classificação racial das plantas, ofereceu também no século XVIII, uma
classificação racial humana em quatro raças, veja o que ele falou do homem
africano: “negro, flegmático, astucioso, preguiçoso, negligente, governado pela
vontade de seus chefes (despotismo), unta o corpo com óleo ou gordura, sua
mulher tem vulva pendente e quando amamenta seus seios se tornam moles e
alongados”. Em outras palavras, “negro é bandido”.
O desabafo de Jr. Jota no facebook é uma
expressão de tudo isso. Ele compartilhou uma montagem, contendo duas fotos,
mostrando um grupo grande de garis e uma turma de formandos em medicina. Os
formandos em medicina eram todos, sem exceção, brancos, enquanto os garis da
Colurb eram todos, sem exceção, negros. Ainda existiram pessoas que disseram
que foi uma opção dos negros em não estudar, e usaram o Joaquim Barbosa como
exemplo para dizer que o negro não precisa de cotas para poder chegar às
universidades.
A verdade não é bem assim, eu sou o primeiro
da minha família a ter um curso universitário. Ninguém da minha família, em
mais de 120 anos, até onde eu pude chegar a encontrar, teve a oportunidade de
conseguir este feito, no meu caso, estudando em uma faculdade particular, o meu
irmão mais novo conseguiu o feito de entrar em uma faculdade pública através do
ENEM, e não entrou em primeira chamada.
As universidades públicas estão povoadas por
pessoas de classe média alta, e não deveria ser o contrário? Não é ensino
público, onde estão os de baixa renda e principalmente, onde estão os negros?
Você não vê um gerente de banco negro, um diretor de uma multi nacional negro,
um âncora de jornal em horário nobre, ou em qualquer horário negro. Não existem
jornalistas negros? Onde estão?
Estamos todos, se trabalhando, como garis, na
construção civil como operários, camelôs, as vezes ao mais afortunados como
taxistas, motoristas de ônibus, faxineiros, catadores de lixo, as vezes como
seguranças, quem sabe os mais sortudos como educadores físicos, esquece como
técnicos de futebol, porque neste setor não há vagas para negros. Para muitos,
negro ou é serviçal, jogador de futebol, pagodeiro, mendigo ou bandido.
O incrível é que nós não podemos reclamar,
temos de tomar porrada na cara e dizer “oi”, porque os meritólogos de plantão
dizem que é puro “mimimi”, conversa fiada, choro, e que na realidade não fizemos por merecer. Mas, na
realidade isso se chama outra coisa, é preconceito. A verdade é que o Brasil
mudou, o mundo mudou, mas, o negro brasileiro, mesmo depois de “livre” há 130
anos, ainda não saiu da senzala.
Estamos cansados de tudo isso. Mas, existe um
“porém” por trás de tudo isso. Se nós estamos trancados nesta senzala, onde
estão as chaves desta masmorra? E quem tem essas chaves? Eu vou lhe dizer,
embora nós soframos com as ações discriminatórias das instituições através do
preconceito institucional, nós precisamos formar os empresários, os médicos, os
administradores, juristas, bancários, professores universitários e escritores
de amanhã. Somos a grande maioria da população brasileira e ainda existem
setores dos quais nem sonhamos ocupar. É inadmissível, por exemplo, uma novela
das nove que o cenário principal é a Bahia, onde 70 % da população é negra e o
núcleo principal é formado por atores brancos, aliás, só existem trê ou quatro
atores negros em toda a trama, já me convenceram a não ver essa novela. A que
terminou, tem mais atores negros do que a que se ambienta no principal berço
negro no Brasil.
Os que me preocupa, o que acontece na
televisão se reflete na vida, o negro é abandonado, deixado de lado, só aparece
como estatística no Brasil. É fácil ignorar alguém, agora coloca-se no lugar da
pessoa ignorada, o que esses homens e mulheres negros fizeram para tamanha
maldade? Nada. Simplesmente nasceram. Essa maldição só será quebrada no dia em
que o jovem negro se impor da maneira correta, chegou o tempo de se colocar em
evidência na sociedade que te rejeita. Nenhum indivíduo que faz parte deste sistema
quer ver um jovem pobre e negro subir na sociedade de forma honrada e pela
porta da frente. Eu sei que a meritocracia não existe, mas, deixar-se abater
por que não te querem lá não é o melhor caminho. Lute, estude, trilhe este
caminho de escuridão e trevas para poder chegar ao caminho da luz e abra os
caminhos para aquele que vem atrás de você. Para se ter uma ideia o Denzel
Washington pagou os estudos de um certo jovem negro que anos mais tarde também
se tornaria um grande ator, seu nome é Chadwick Boseman, o pantera negra. Suba
na vida e puxe o seu irmão consigo. Você temas chaves que vai nos libertar
desta senzala miserável, não pense mais, passe a agir mais, estude e vença,
pois, sair desta senzala depende de você.
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